Pousadas de Brasília e a Copa do Mundo

(Marcos Pato, Getúlio Valente e Sônia Bulhões – com óculos, entre outros associados)

Por: Walter Brito

Poucas coisas são tão tradicionais em Brasília como as lembrança das festas do Brasília Palace Hotel, no inicio dos anos 60; o charme do Hotel Nacional e as famosas e polêmicas pousadas da capital brasileira. Vale lembrar, que as casas da avenida W3 Sul, foram planejadas por Lúcio Costa, em 1956. Em 1957 começaram o funcionamento das pousadas, para hospedar funcionários públicos transferidos do Rio de Janeiro. 57 anos se passaram e as pousadas do Distrito Federal já fazem parte de sua história. Por lá, moraram jovens que se tornaram altos executivos no Brasil e no exterior, deputados, ministros, governadores e até presidentes de bancos, passaram pelas pousadas da W3.

Durante o governo Arruda, as pousadas foram fechadas e alguns de seus proprietários, que não conseguiram sobreviver fora daquela atividade, permaneceram no ramo; mas, na clandestinidade. Eles usavam um artifício: Com a relação de clientes nas mãos, passaram a receber para hospedagem, somente clientes mais chegados e amigos que vinham ao DF para negócios, tratamento, ou até mesmo fazer turismo. Nesta época, os proprietários e trabalhadores nas pousadas, passaram a ser caçados como se fossem perigosos bandidos. Nos últimos anos, um dos proprietários de pousada, o Getúlio Valente, resolveu fundar, a Associação de Proprietários de Pousadas, com o objetivo de resistir à pressão do governo e da concorrência, representada pela poderosa rede hoteleira de Brasília.

O atual governo sob o comando de Agnelo Queiroz (PT), com apoio de parlamentares de diversas siglas, procuram um Plano B para a legalização definitiva das tradicionais pousadas. O Plano A é a continuidade das pousadas nas quadras 700 Sul e outras da W3 Norte. O Plano B seria a mudança para as quadras 500 da Asa Sul, a 700 Comerciais Norte e, o Setor de Múltiplas Atividades. É importante ressaltar, que as pousadas oferecem preços bem mais baratos que os cobrados por hotéis do Plano Piloto de Brasília; além de um ambiente familiar, preferido por muitos hóspedes, inclusive estrangeiros.

A Copa do Mundo que ocorrerá em 2014, com sete jogos em Brasília, certamente suas hospedagens alternativas serão fundamentais. Vale lembrar, que é muito comum a hospedagem em pousadas, em diversos países, inclusive nas áreas tombadas pelo patrimônio público.

Entrevistamos a advogada e presidente, da associação de proprietários de pousadas de Brasília, a doutora Sônia Bulhões; o ex-presidente da referida associação, Getúlio valente e, o professor e ativista das causas sociais, Marcos Pato.

Sônia Bulhões

“Essa questão que parecia polêmica no inicio, com o tempo, os debates do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico — PPCUB; o governo e toda sociedade reconheceram que se trata de uma questão importante no âmbito das políticas públicas. É importante ressaltar que brasileiros de todos os rincões, vêm a Brasília resolver diversos problemas, entre os quais, problema de saúde. Pacientes e seus acompanhantes procuram hospitais de referência, como o Sarah Kubitschek, referência mundial na recuperação de vítimas de traumatismos graves. Já o Hospital de Base, é o hospital que atende pessoas da Região Metropolitana de Brasília; enquanto que o Hran é referência no atendimento a queimados. A maioria dos pacientes e acompanhantes, que vêm para esses hospitais, não têm recursos para pagar hospedagem na rede hoteleira do Distrito Federal. Portanto, a alternativa são as pousadas, com preços bem inferiores e ambiente familiar, preferido por muitos, inclusive estrangeiros. Por falar em estrangeiros, diversos países, são pioneiros no uso das pousadas, até mesmo em cidades tombadas pelo patrimônio público, como Brasília. Entre as cidades onde é comum a hospedagem em pousadas, cito Paris, Milão e Bariloche. Por que em Brasília tem que ser diferente?”

Getúlio Valente

“Eu gostaria de pedir aos políticos, que respeitassem o trabalho digno e honrado, prestados pelos donos de pousadas e seus funcionários, durante 57 anos na capital brasileira. Trabalho no ramo em Brasília há 40 anos. Já hospedei pessoas do Oiapoque ao Chuí; da China ao Japão. Já tive hóspedes importantes da França, Itália, Espanha, EUA e outros países, a maioria indicados pelas embaixadas acreditas em Brasília. Um dos políticos que morou na minha pousada na juventude, foi o ex-prefeito de Anápolis, Adhemar Santillo; irmão do ex-governador goiano, Henrique Santillo. E mais, hospedei jovens que se tornaram embaixadores, deputados, senadores, ministros e grandes executivos. O nosso trabalho contribuiu de forma efetiva com a sociedade brasiliense e brasileira, portanto, queremos justiça e continuidade de nosso trabalho feito com responsabilidade. Queremos ficar onde estamos, há quase 6 décadas.”

Marcos Pato

“No período eleitoral como sempre, os políticos procuram os donos de pousadas, que se transformam em aguerridos cabos eleitorais. Eles fazem mil promessas e quando assumem o mandato, esquecem todas elas e, muitas vezes fazem o contrário; como ocorreu na época do Arruda. Os proprietários de pousada, foram surpreendidos por Arruda, perseguidos como perigosos bandidos. Nesse período, as pousadas foram fechadas, oportunidade em que surgiu uma grande campanha para difamar seus proprietários. Foi pregado em alto e bom som, que tudo que não prestava nas quadras 700, tinha origem nas pousadas. Entretanto, esses guerreiros, prestam serviços relevantes para a sociedade; na medida em que a maior parte das pessoas que vêm a Brasília, não tem recursos suficientes para se hospedar na rede hoteleira. Se o Arruda perseguiu, o governo que aí está, tem outros olhos para essa importante questão social. Não votei no Agnelo, mas o seu governo por meio do secretário Magela, abriu um processo de interlocução e negociação com os proprietários das pousadas, através da elaboração do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico – PPCUB. Não tenho dúvidas que no ano da Copa, as pousadas serão fundamentais para a acomodação de brasileiros e estrangeiros, pois, a nossa rede hoteleira certamente não conseguirá acomodar a todos. A partir de 2014 teremos uma nova realidade em relação ao serviço de hospedagem no DF. Acredito!”