A farra das pesquisas

Texto por Hélmiton Prateado

Enviado por Diário da Manhã -

Goiás foi o terceiro Estado em número de pesquisas registradas. Especialistas pedem mais rigor na fiscalização < /p>

Texto por Hélmiton Prateado Enviado por Diário da Manhã -

As pesquisas de intenção de voto em Goiás foram um capítulo à parte nas eleições desse ano. O volume de pesquisas divulgadas e os números desencontrados chamam a atenção de especialistas em Direito Eleitoral, pesquisas e ciência política. A rigor, as pesquisas iludiam candidatos com esperança de vitória nas urnas e eleitores que não sabiam dos direcionamentos contidos nos levantamentos.

Com um contingente de eleitores de cerca de quatro milhões de eleitores, o que representa apenas 2,9% do eleitorado brasileiro, Goiás teve o terceiro maior número de pesquisas registradas junto ao Tribunal Superior Eleitoral. Ao todo, o site do TSE confirmou 736 pedidos de registros de pesquisas eleitorais feitos pelos institutos. Essas foram somente às consultas com permissão para serem divulgadas, pois há aquelas feitas somente para consumo interno.

A pergunta que todos fizeram durante o período eleitoral foi até que ponto é possível acreditar nas pesquisas, na correção de sua metodologia científica e na credibilidade de institutos e técnicos que se diziam responsáveis pelas pesquisas. "Sabemos que foram divulgadas pesquisas sem a mínima credibilidade e que eram sabidamente tendenciosas e suspeitas de serem direcionadas para ajudar determinados candidatos", comenta a promotora de Justiça Vilis Marra, que atuou no Ministério Público Eleitoral.

A promotora frisou que divulgar pesquisas manipuladas é uma forma deplorável de "brincar com o eleitor" e prestar um grande desserviço para o aprimoramento das instituições políticas. Ela considera essa prática profundamente lamentável e analisa os resultados nefastos que a manipulação pode provocar.

"Divulgar pesquisas distantes da realidade causa mais confusão nos eleitores do que definição quanto ao rumo do processo eleitoral. O eleitor tende a descarregar o voto útil em candidatos que estão em ascensão ou que na propaganda tendem a ser eleitos, e isto é altamente maléfico para a democracia e para a sociedade", comenta a promotora de Justiça. Ela defende que, para o próximo pleito, a realização de pesquisas e sua divulgação sejam mais bem normatizadas pelo TSE para evitar abusos.

Fábrica de ilusões

Os institutos de pesquisas proliferaram nessas eleições como uma praga. Surgiram empresas que colocavam pesquisadores nas ruas das cidades com a mesma facilidade com que os candidatos encomendavam pesquisas. Ocorreram momentos em que três institutos davam resultados completamente diferentes para a mesma eleição. Alguém estava errado, não havia a menor possibilidade de todos dizerem a verdade.

Foi o caso de Trindade, em que três institutos diferentes apontavam vitória dos três candidatos isoladamente: Flávia Morais, Ricardo Fortunato e o que acabou vencendo o pleito, o empresário Jânio Darrot.

De acordo com o diretor do Instituto Grupo, Mario Rodrigues Filho, é preciso ter muito cuidado com os números divulgados sobre a intenção de voto para não iludir todos os envolvidos. "Candidatos tendem a acreditar que suas estratégias estão corretas e eleitores não sabem ao certo como orientar sua vontade de votar", explica.

Mario é diretor de um dos mais tradicionais institutos de pesquisa de Goiás. Em Senador Canedo, seu instituto mostrou que o candidato a prefeito pelo DEM, Franco Martins, estava bem atrás do líder das pesquisas, Misael de Oliveira, que acabou vencendo o pleito. Outro instituto divulgou uma pesquisa apontando que Franco liderava a preferência dos eleitores, o que fez o candidato do Democrata se irritar com o Grupo e dizer que "tomaria o poder em Senador Canedo". Foi o clássico serviço de ilusão ao candidato que até hoje acredita ter vencido as eleições no município. Agora Franco Martins questiona a seriedade da Justiça Eleitoral, que seria "a responsável por sua derrota".

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Falha na legislação permite abusos

A rigor os institutos e seu corpo técnico estão agindo dentro da lei. A explicação é do delegado do Conselho Regional de Estatística da 1ª Região, Rui Abrantes. "Em todas as eleições, as Resoluções do Tribunal Superior Eleitoral definem os parâmetros legais para a realização e divulgação de pesquisas. Este ano não foi diferente", justifica.

Para Rui Abrantes, quem deveria fiscalizar com mais rigor as pesquisas, os institutos e os estatísticos é a Justiça Eleitoral. Ele lembra que se a pesquisa foi feita dentro dos parâmetros definidos pelo TSE, se tem a assinatura de um estatístico que fez o plano amostral e se foi devidamente registrada não há o que reclamar.

Entretanto, pondera o delegado do Conre, "há erros grosseiros nessa lei que permitem abusos de todas as formas e até manipulação de pesquisas". Ele é experimentado estatístico que trabalha com pesquisas de intenção de voto há vários anos e viu que nessas eleições de 2012 a coisa correu frouxa.

"É preciso criar mecanismos mais severos para endurecer o jogo e não deixar que partidos e candidatos fiquem brincando com a vontade do eleitor e desvirtuando esse importante instrumento de orientação política dos cidadãos", frisa.

Uma pesquisa não pode perguntar apenas em quem o indivíduo vota. É preciso situá-lo de forma mais ampla e embasada, como se ele é realmente eleitor naquele município, se vai votar ou se pretende se abstiver; é preciso aplicar um perfil socioeconômico ao entrevistado e outras características que possam embasar a pesquisa.

Recordista tem cerca de 400 pesquisas divulgadas

O estatístico Alexandre Vasconcelos Lima, formado pela UnB, é um fenômeno nas pesquisas eleitorais. Foram registradas sob sua responsabilidade cerca de 400 pesquisas somente nos meses de setembro e outubro, até o dia das eleições. Aos 28 anos e morando em Brasília a maior parte da semana, somente nos finais de semana vem para Goiânia, ele conseguiu a proeza de avaliar a intenção de voto entre os eleitores de Goiás – mais de 200 pesquisas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e São Paulo.

Alexandre confirmou que fez um número expressivo de "planos amostrais" para institutos de pesquisa, mas que isto é legal e que não teme qualquer investigação do Conselho Regional de sua categoria. "Uma pesquisa compreende três fases distintas: planejamento, coleta de dados e análise de dados. Somente a primeira é necessária o envolvimento pessoal do estatístico", o comentou.

Para o recordista em pesquisas registradas, a primeira fase é o plano amostral, em que ele detalha os critérios para a pesquisa de intenção de voto. A segunda é o trabalho de campo, em que os entrevistadores vão ao contato direto com o eleitor, e a terceira é a análise dos dados, em que os dados colhidos são transformados em números para serem divulgados por quem contratou a pesquisa.

"Essa justificativa está correta, infelizmente", diz outro pesquisador que trabalha na área há três décadas. O erro está na lei que permite isto e que não tem mecanismos de fiscalização.

Institutos também querem mais rigor

O empresário Paulo Rodrigues da Silva, diretor do Instituto EPP, defende que sejam adotados critérios mais rígidos para a confecção e divulgação de pesquisas como forma de "depurar o mercado e deixar somente quem tem responsabilidade com a sociedade".

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Paulo Rodrigues lembra que seu instituto fez mais de 100 pesquisas em Goiás e o índice de acerto de seus apontamentos ficou em 90%, com raras exceções em que a eleição foi definida na última semana.

"Para realizar nosso trabalho em tantos municípios de Goiás e de outros Estados, primamos por colocar entrevistadores sérios e manter intensa fiscalização para não haver furo. A credibilidade é tudo para um instituto de pesquisa, e criar mecanismos que auxiliem esse trabalho será fundamental para a democracia e para as instituições políticas", frisa.

O diretor da EPP frisa que essa discussão poderá suscitar um debate ainda mais amplo sobre o aprimoramento da democracia com o apoio da Justiça Eleitoral e dos institutos que "realmente tenham o respeito da sociedade".

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