“Não deixaria meus negócios para entrar na vala comum da política”

Com o pé na estrada, Júnior do Friboi entra de cabeça na política de Goiás e, após enfrentar como empresário a resistência dos Estados Unidos, se diz preparado para superar tudo.

Por Márcia Abreu/Jornal Opção

  • Júnior do FriBoi

  • O empresário José Batista Júnior é, desde o ano passado, o político José Batista Júnior. Fora da área operacional da gigante JBS, a multinacional nascida em Goiás e que se tornou a maior do setor frigorífico dos Estados Unidos — está agora apenas com acionista e no conselho da empresa —, ele se dedica integralmente a construir o PSB, seu partido desde o ano passado, pelo Estado inteiro. Tem gastado sola de sapato por todo o Estado. De poucas dezenas de diretórios há menos de um ano, os socialistas já estão instalados em mais de 200. Um crescimento assombroso, que tem preocupado os adversários na corrida eleitoral.

    O motivo é óbvio: a estrutura que o partido ganha, tanto por si só como em coligações com siglas como o PMDB e o PT, entre outras, vai dar as condições ideais para que o nome escolhido pelo grupamento enfrente o governador Marconi Perillo daqui a dois anos com fôlego e musculatura para o bom combate. E os rivais sabem: o provável postulante será o próprio José Batista Júnior, mais conhecido como Júnior do Friboi.

    Em busca do sucesso eleitoral, ele tem percorrido o Estado e conseguido vitórias até mesmo antes do pleito de outubro: é de grande responsabilidade dele a virada da oposição em Itumbiara, onde Gugu Nader (PMDB) está à frente nas intenções de voto, desbancando candidatura apoiada pelo popular prefeito Zé Gomes (PSDB). Apesar de só agora entrar para valer na cena como ator político, Júnior conhece bem o terreno onde pisa — desde 1998, está sempre na ativa, colaborando com concorrentes às eleições. Agora, dentro do meio, o pé-de-valsa confesso — diz que um de seus maiores prazeres é dançar — diz que chega para inovar e fazer uma política sem as velhas rivalidades. A trilha sonora para o momento que vive ele já escolheu: “Tocando em Frente”, música composta por Almir Sater e Renato Teixeira.

    Euler de França Belém — Como tem sido sua caminhada como líder maior de um partido político?

    Estou filiado ao PSB desde o dia 8 de julho do ano passado. Naquele dia, o partido tinha organização em 32 municípios. Hoje, estamos atingindo 200, com pessoas de ponta e de envergadura assumindo a presidência desses diretórios. Já visitei cerca de 110 municípios. Desse total de localidades em que o PSB já está instalado, recebi retorno de quase todas comunicado que teremos candidatos a prefeito ou a vice, além de uma boa chapa de vereadores. Ou seja, vamos ter representação em praticamente todas as chapas majoritárias no Estado. Acredito muito em nosso projeto, acima de tudo porque ele traz um viés de inovação, de transformação do modelo político. Onde quer que eu vá, tenho visto que todos querem mudança, tanto no rumo de desenvolvimento do Estado como na questão dos valores mais nobres, seja na família, seja na política. Ninguém quer mais perseguição, mentiras, falsidades em nosso meio. Política, para mim, é algo muito simples: é a arte ou o instrumento de bem servir a todos. O Estado precisa dar qualidade de vida a todos. O PSB traz uma proposta de gestão que chega para construir Goiás de forma a ter orgulho por viver em um lugar que ofereça o melhor em bem-estar para sua população, em todos os aspectos — saúde, educação, segurança, transporte, industrialização, infraestrutura etc. Nosso objetivo é fazer as pessoas retornar às suas raízes, fazendo-as ter motivos para se transferir dos grandes centros de volta para seus municípios de origem. Faço visitas sobretudo suprapartidárias. Nelas, vejo que as pessoas estão cansadas, decepcionadas mesmo, com o modelo em voga hoje no Estado.

    Cezar Santos — O sr. diria que as pessoas estão decepcionadas com o atual governo estadual, é isso?

    As pessoas estão cansadas desse embate promovido pelo modelo político da polarização. Temos hoje uma condição de trabalhar de forma diferente, porque o próprio partido nos dá esse suporte. O PSB é um partido novo e renovado, que está muito bem representando em nível nacional e que tem um presidente, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que faz uma belíssima gestão em seu Estado. Tenho visitado também os demais cinco governadores do partido [Camilo Capiberibe (AP), Cid Gomes (CE), Renato Casagrande (ES), Ricardo Coutinho (PB) e Wilson Martins (PI)] e observado, pela prática deles, que não é necessário entrar nesse tipo de jogo de rivalidade, do “quanto pior, melhor”.

    Cezar Santos — Pelo que o sr. diz, Goiás finalmente vai ter o que se chama de terceira via?

    Eu espero que não tenha. Minha expectativa é de que a gente chegue a 2014, depois das próximas eleições municipais, com um entendimento suprapartidário já construído na oposição e que esta leve apenas um nome às urnas. Assim seriam apenas dois postulantes: um candidato, que deve ser o que está no governo, e outro, nosso, da oposição, que vai trazer certamente um projeto inovador para o Estado.

    Patrícia Moraes Machado — O sr. já se apresenta nessas visitas pelos municípios como pré-candidato a governador?

    Não, não estou dizendo que sou pré-candidato. O que digo é que o PSB vai participar das eleições majoritárias.

    Elder Dias — Como cabeça de chapa?

    Sim, é o que desejamos. A oposição está reconhecendo que precisa trazer algo novo, que o povo espera uma proposta inovadora. É o que é o PSB representa.

    Patrícia Moraes Machado — Por que começar já agora esse projeto? Não é muita antecipação?

    Não é. Começar agora, atuando já no processo das eleições municipais, significa construir a base para as eleições de 2014. É preciso fazer as coisas com antecedência e andar pelo Estado já agora é muito importante. As pessoas querem que seus problemas sejam conhecidos, não que simplesmente vão lá para pedir votos na época da campanha. Nas conversas que tenho tido, elas me relatam o quanto ficam decepcionadas por serem lembradas só perto das eleições. Os políticos em geral não buscam ter tempo para conhecer as ne¬cessidades das pessoas com mais profundidade. Eu estou me dispondo a ter esse tempo. Fazer política é isso. Então, durante esse tempo de caminhada, que¬ro me inteirar totalmente dos problemas das famílias, dos municípios e do Es¬tado como um todo. É es¬sencial observar e compre¬ender o potencial de cada re¬gião, para levar a estrutura certa para o lugar certo. Estou totalmente disponível e acredito muito na alternância do poder para 2014.

    Elder Dias — Quais têm sido seus companheiros nessa caminhada? Há muita gente envolvida?

    Temos aglutinado grandes partidos e grandes pessoas. Um deles está aqui (apontando para o deputado estadual Francisco Gedda, que o acompanhou à entrevista), um companheiro de primeira hora e que preside o PTN. Com ele e outros colaboradores, estamos percorrendo o Estado. O que vejo é que há uma vontade não só minha, mas algo coletivo, para transformar nossa realidade. Há o desejo de um movimento diferente, por meio do qual possamos desenvolver também o espírito das pessoas. E não existe como mudar esse espírito com um Estado pobre, quebrado.

    Patrícia Moraes Machado — O sr. sempre atuou nos bastidores da política, colaborando com quem estava no poder. Agora, se apresenta como um nome concorrente, que foi, no início, subestimado. Qual é a imagem que o sr. acha que tem hoje no meio político?

    Tudo tem um momento certo. Nunca subestimei ninguém e tenho respeito a todos. Considero que não seja sensato subestimar qualquer pessoa. Eu sempre fui uma pessoa simples, que nasceu em Anápolis e construiu uma empresa que quebrou paradigmas e barreiras comerciais e hoje representa o Estado e o Brasil no mun¬do inteiro. Por que, então, esta mesma pessoa não poderia promover Goiás da mesma forma com que promoveu sua empresa? Por que não tentar projetar Goiás da mesma forma que ocorreu com a JBS? Não tem nada diferente. Em muitas situações, dei passos para trás em minha vida empresarial. O mesmo já aconteceu na política: antes eu tinha condição de sair candidato, mas não tinha como deixar a empresa, ou estava pronto para deixar meus negócios, mas não era o momento certo de tentar uma candidatura. Agora achei a estrutura partidária e o tempo corretos: pude deixar a empresa e tenho disponibilidade. O momento é o de avançar no projeto. As palavras de ordem hoje são confiança, credibilidade, trabalho, inovação. E a isso que me proponho. Eu não deixaria meu negócio para entrar na vala comum, de fazer um projeto sem ter condições de governabilidade.

    Como governador, acharia inconcebível ignorar uma cidade por questão partidária”

    Elder Dias — O que o sr. chama de vala comum?

    É o modelo tradicional, de dependência, que leva ao loteamento de uma gestão antes mesmo de se tomar posse no governo. Estou disposto a mudar isso e fazer um governo para todos, em que haja governabilidade, mas com pessoas certas nomeadas para os lugares certos.

    Cezar Santos — Percebe-se que, com essa movimentação agora, seu grupo quer criar uma musculatura a partir das eleições municipais, algo necessário para se enfrentar o pleito de 2014. Esse grupo já tem uma previsão de quantas prefeituras poderá conseguir?

    Queremos fazer o máximo possível de eleitos.

    Cezar Santos — Entre o máximo e o possível, há uma diferença...

    (refletindo) Tenho a convicção que podemos ter sucesso em até 140 municípios, no que a gente pode chamar de grupo dos partidos de oposição, toda a base não aliada.

    Cezar Santos — Até algumas semanas atrás o sr. ocupava uma representação no Estado, como presidente do Promogoias [Conselho Superior para Promoção de Investimentos e Negócios Internacionais]. Foi o sr. quem pediu para sair?

    Sim, quando me filiei ao PSB, até mesmo por ética partidária, fiz essa solicitação ao governador. Fui substituído por um grande amigo, Marcelo Limírio, sócio da Neo Química e empresário de uma competência que dispensa qualquer comentário.

    Euler de França Belém — O PMDB é o partido mais forte do Estado, ao lado do PSDB. Como está a articulação com esse partido? O sr. percebe que Iris Rezende ainda é um líder forte em todo o Estado?

    Iris não somente é um líder, como sempre será. Tenho um carinho e um respeito muito grande por ele. Estamos juntos com o PMDB e eles conosco. Nosso diálogo tem sido muito respeito, não há nenhuma dificuldade de minha parte e creio que vice-versa também. Minha intenção é dar apoio a todos os pré-candidatos e futuros candidatos do partido, assim como aos do PT.

    Euler de França Belém — O sr. tinha uma ligação muito forte com o governador Marconi Perillo. O que motivou esse afastamento?

    O que aconteceu foi do ponto de vista político, apenas. Caminhamos juntos 16 anos, desde o primeiro dia da primeira eleição dele. Continuo tendo grande respeito. Ajudei seu grupo em tudo o que me solicitaram.

    Euler de França Belém — Mas houve um momento de ruptura...

    Sob o viés partidário, somente nisso, porque não concordo com o modelo que está instalado. O PSB precisa afirmar sua ideologia. Estive filiado ao PSDB, não concordei com o pensamento e a ideologia do partido e saí.

    Euler de França Belém — O que o sr. discorda nesse modelo de gestão do PSDB?

    O que me afasta desse modelo é a forma de atuação política, baseada na perseguição, na vingança, na falta de cumprimento de compromissos. Andei 16 anos com eles e eu era considerado bom. Do dia para a noite começaram a falar mal de mim, somente por eu estar com outro pensamento, outra linha política. Tenho direito de defender a ideologia que encontrei no PSB, que preza a ética e a liberdade. Não preciso mentir para ninguém nem usar de falsidades nem faltar com o respeito com a pessoa. Não é preciso fazer política assim.

    Patrícia Moraes Machado — Mas o sr. acreditava no que pregava o PSDB enquanto apoiou o partido, do ponto de vista político?

    Sim, eu não apoiaria aquilo em que não acredito. Era preciso acreditar, mas as coisas que acontecem acabam fazendo por minar essa confiança.

    Euler de França Belém — Mas perseguição é algo, digamos, normal dentro da política. Em relação ao modelo de gestão, isso é o que realmente pode fazer a diferença. O sr. pode esclarecer melhor sobre sua ideologia e seu projeto de gestão para o Estado?

    A ideologia que prego não é minha, é do meu partido: a justiça, a paz, o humanismo, o respeito. É preciso que os filiados acreditem de verdade no que está no estatuto do partido. Em relação ao projeto de gestão, temos, infelizmente, uma falta de compromisso com os municípios por parte do Estado, que procura provocar, antes de tudo, uma disputa acirrada, em que o que se observa primeiramente é a questão partidária e não a parceria administrativa com os prefeitos, como deveria ser em um modelo republicano. Não é um projeto para o Estado, mas um projeto de poder para um determinado grupo. Andando pelos municípios, você pode perceber claramente que isso ocorre e como ocorre.

    Cezar Santos — O sr. tem ouvido prefeitos reclamando disso?

    Todos. Todos os prefeitos.

    Cezar Santos — Por que então alguns prefeitos, como o peemedebista Maguito Vilela (Aparecida de Goiânia) e os petistas Antônio Gomide (Anápolis) e Paulo Garcia (Goiânia), elogiam parcerias que fazem com o Estado.

    Não vejo dessa forma. Não sei até que ponto eles estão realmente elogiando essas parcerias.

    Patrícia Moraes Machado — No início dessa sua participação mais efetiva na política goiana, como líder partidário, o sr. chegou a pregar uma macropolítica que unisse líderes em campos opostos, como Marconi Perillo e Iris Rezende. Por que desistiu disso?

    Porque vi que não era possível, ao contrário do que eu pensava. Hoje, vejo que isso não é viável para eles. Eu pensava — e penso — muito mais pelo lado do Estado e de seu desenvolvimento. Ora, sou empresário e preciso de que Goiás se desenvolva da melhor forma possível. Todos os que vivem aqui querem que o progresso aconteça e de maneira real, ninguém pensa em partidarismos, isso não interessa, a não ser para quem quer o poder para seu grupo.

    Euler de França Belém — Não basta querer um desenvolvimento regional igualitário: é preciso convencer o empresário, por exemplo, a se instalar no Nordeste goiano. Como o sr. pretende promover isso, quais são as ações e incentivos que precisam ser implementadas, diante das dificuldades e desafios?

    Não vejo dificuldades, pelo contrário. O Estado pode fazer tudo. Basta levar a estrutura certa para o lugar certo, como eu já disse, por meio de um plano diretor correto. Governar é ouvir as necessidades do povo e dotar os municípios de acordo com suas potencialidades. As indústrias podem se instalar em qualquer lugar, desde que tenham as condições necessárias para isso: é preciso ter energia em quantidade suficiente, estrutura viária adequada, matéria-prima próxima e acessível, distritos industriais bem equipados e bem localizados. Enfim, é necessário que o governante dote cada município com as políticas públicas essenciais, independentemente das cores partidárias. Para mim, em uma gestão que eu conduzisse seria impensável deixar de dar apoio a um prefeito ou de colocar o Estado à disposição da população por causa de o município ser administrado por um nome da oposição. Eu, na cadeira de governador, por exemplo, ignorar as necessidades de uma cidade inteira apenas porque o prefeito é do PSDB? Isso é inconcebível, isso não existe! (enfático)

    Euler de França Belém — O que o sr. pensaria, então, a respeito de uma cidade como Posse ou Guarani de Goiás, no Nordeste goiano? O que poderia ser levado para lá em termos de empreendimentos possíveis?

    É preciso, primeiramente, ter uma noção completa das potencialidades de cada município. O Nordeste goiano precisa, antes de tudo, de toda a atenção possível à educação e à saúde. Lá não tem isso, a população é jogada, esquecida. Tenho fazenda há 50 anos naquela região e a única coisa que quem está no poder faz em relação aos cidadãos é ir lá a cada quatro anos para pedir voto. É toda uma população que é ignorada, que não está integrada ao restante de Goiás. Um dos meus objetivos é promover uma gestão de integração. O Nordeste goiano é apropriado para um certo tipo de aptidão econômica. Pode abrigar, por exemplo, indústrias de cimento. As políticas públicas em relação à agricultura e à pecuária precisam ser fomentadas. Há grandes rios, como o Paranã e o Corrente, que deveriam ser mais bem aproveitados. Poderiam, a título de exemplo, servir ao desenvolvimento do setor hortifrutigranjeiro, com uma produção até mesmo em nível de exportação.

    Elder Dias — Há lugares, como o Nordeste goiano, que são menos privilegiados economicamente e que, ao mesmo tempo, têm uma densidade populacional menor, o que leva a certo desinteresse eleitoral melhor. O sr. resolver priorizar uma região como essa não seria ter de tirar investimentos de localidades mais ricas e mais povoadas e, no fim, pela pressão política, esse plano ser inviabilizado?

    Isso tudo é questão de gerenciamento. Estamos acostumados simplesmente a ver a situação dessa forma por conta de um modelo já arraigado. Precisamos fazer um entendimento e um pacto pelo Estado como um todo. As pessoas do Nordeste, que passam por privações, são como as de qualquer outra parte do Estado: são gente, têm as mesmas necessidades, têm família do mesmo jeito, não muda nada.

    Elder Dias — Mas o que faria, politicamente, um governo concentrar recursos em uma região que dá menos votos?

    Não há outra forma a não ser adotar uma política intervencionista. Temos de colocar como prioridade um programa de Estado, não um projeto eleitoreiro, visando à próxima eleição. A prioridade precisa ser a pessoa, não o voto dela. Não há como pensar o desenvolvimento do Nordeste goiano sem pensar em promover a educação de forma ampla.

    Elder Dias — Como o sr. analisa o Pacto Pela Educação, proposto pelo governo estadual, que chega, de acordo com o próprio governo, como uma estratégia de Primeiro Mundo para desenvolver o setor no Estado?

    Tomara que dê certo e é preciso fazer algo pela educação, seja com este governo que aí está ou com qualquer outro que estivesse no poder.

    Euler de França Belém — O sr. conseguiu vencer no mercado mais competitivo do mundo, o dos Estados Unidos. É um empresário, portanto, com pensamento diferenciado, que pensa em desenvolvimento, algo bem mais amplo do que crescimento. É o que vejo quando o sr. fala em aposta no homem, na pessoa. Mas, em relação à pessoa, o que o sr. pensa em relação ao funcionário público, que hoje fica com quase 70% de toda a receita do Estado. Ou seja, isso fica com 150 mil servidores, no meio de uma população de 6 milhões. Há mais 15% para custeio da dívida e mais 12% para custeio da máquina estatal. Sobra pouquíssimo para investimento. Com tão pouco para investimento, como fazer, então, para gerar desenvolvimento?

    Não faço a conta assim, de forma tão apertada. Primeiro porque se estamos quase com 70%, o limite máximo, isso já está errado. Não podia estar assim. O que não podemos é deixar de fazer investimento, é preciso que sobre mais para isso. Com uma folha que abrangesse no máximo 55% da receita, isso se torna bem mais viável. É preciso então enxugar a máquina, por exemplo com o incentivo à transferência do servidor para a iniciativa privada, criando atrativos interessantes para isso. Boa parte dos servidores não está satisfeita em trabalhar no Estado, até porque não vê progresso como pessoa e o nível salarial não é tão atraente assim. Se conseguirmos fazer com que a iniciativa privada seja uma possibilidade interessante para ele, vamos desinchar o Estado e, por outro lado, também deixar essa pessoa mais realizada. Em termos de gestão, temos de investir na causa do problema, como ocorre quando um administrador busca salvar uma empresa que está em concordata. Não é só tirar pessoas, mas também revendo contratos, incentivando a produção para gerar mais receita. O Estado precisa também ter um controle mais efetivo da máquina e de seus gastos, além de uma capacidade maior de captação de recursos para investimentos com o governo federal. Hoje, querendo ou não, há uma maior dificuldade do governo estadual para isso, até mesmo pela questão partidária, não dá para negar. Enfim, é preciso mexer em uma série de coisa para se buscar esse equilíbrio.

    Patrícia Moraes Machado — O sr. é a favor das parcerias público-privadas (PPPs)?

    Sim, é preciso fazer. Encontrar alternativas para viabilizar o gerenciamento da máquina do Estado é algo sempre necessário, mas é preciso costurar o modelo da forma correta. Têm modelos de PPPs que funcionam muito bem, o que precisamos é buscar aprender com essas experiências que deram certo. Como eu já disse, de outras formas, um Estado que têm despesas maiores do que a receita já quebrou, só não sabe disso. É preciso administrá-lo como uma empresa, não há outra saída. E hoje, se fosse uma empresa, o Estado estava em concordata.

    Euler de França Belém — Como governador, como o sr. trabalharia a questão do incentivo fiscal? Desde a época do Fomentar, há gente que critica, por considerar uma renúncia fiscal, e outros que acham necessário, que isso gera emprego e renda.

    Em um primeiro momento o incentivo fiscal foi muito bom. Nossa empresa inclusive foi beneficiada pela medida. Hoje o momento é outro e eu não estou no governo para saber exatamente a situação atual. É preciso rever a guerra fiscal fomentada pelos incentivos. Pergunto se não seria melhor um bloco entre os Estados de forma unificada, em vez da briga intensa entre todos. Hoje, a guerra fiscal acaba não beneficiando Estado nenhum. O Estado tem de honrar compromissos que já foram feitos, mas é necessário discutir, em conjunto, uma nova forma de pensar esses incentivos.

    “Presidente Dilma está no rumo certo na condução da economia do País”

  • Euler de França Belém — E como o sr. vê a reforma tributária?

    Há muito a ser feito, a ser pensado. Uma forma simples e ágil de aumentar a arrecadação é tirar empresas da informalidade. O índice de comércio informal é muito alto. A saída passa por ampliar a base da arrecadação com redução de impostos seja melhor do que simplesmente conceder incentivos. Mesmo porque uma empresa não busca apenas por isenção fiscal, há outros fatores que a atraem: o custo e o escoamento da matéria-prima, a facilidade de distribuição de seu produto, os mercados próximos potenciais.

    Elder Dias — Como o momento da economia mundial afeta o Brasil e Goiás em particular, com a quebra de países na Europa, com a tensão em regiões petrolíferas do Oriente Médio? O Estado e a União estão tomando as medidas adequadas?

    Acredito que o Estado pouco ou nada possa fazer. Encarar essa conjuntura depende quase que exclusivamente do governo federal. Logo, a responsabilidade da presidente Dilma Rousseff é enorme e precisa saber conduzir a economia do País da forma mais equilibrada possível. É preciso, ao mesmo tempo, não deixar a inflação avançar e evitar a recessão. Dilma está no rumo certo.

    Euler de França Belém — Mas o sr. acha que essa meta de crescimento de 4,5% no ano é possível?

    Sim. Digo sempre que o Brasil cresce de dia e de noite. Temos problemas nos EUA e na Europa, então é preciso cuidado. Creio que já em 2013 as economias vão se arrumar.

    Elder Dias — Então, em sua visão, o pior já passou?

    Acho que sim. O problema, agora, é resolver questões importantes, embora mais pontuais, como a permanência ou não do euro como moeda comum europeia.

    Cezar Santos — O Brasil está sendo criticado de analistas internacionais por adotar o que se chama de “capitalismo de Estado”. Uma das maiores críticas é colocar estruturas como o BNDES a serviço de empresas, principalmente algumas com certa ligação ao governo. Uma delas seria a JBS. O que o sr. diria sobre isso?

    Já falamos sobre isso em várias outras oportunidades. O que houve foi uma venda de ações, por parte da JBS, para o BNDES, que é um banco de desenvolvimento que tem, como uma de funções, internacionalizar o Brasil e suas empresas, com multinacionais que quebrem barreiras comerciais e tragam credibilidade. É muito importante lá fora saberem que o BNDES é sócio de nossas empresas. O governo está certíssimo em fazer essa política. Se o presidente Lula não tivesse feito o País entrar no jogo dessa forma não teríamos crescido como crescemos. A JBS ofereceu ao Brasil, por meio do BNDES, a oportunidade de liderar o comércio mundial de proteínas, inclusive comprando empresas americanas e quebrando barreiras em todo o mundo. Hoje vendemos produtos em todo o planeta em função disso. Não há por que criticar: se alguém levar um projeto consistente, que tenha possibilidade real de sucesso e que traga internacionalização, de forma sustentável, o BNDES vai aprovar e vai entrar junto. O problema são os projetos inconsistentes. Se se faz um projeto que não se sustenta, como é que um banco de desenvolvimento vai dar sinal verde?

    Patrícia Moraes Machado — É bom lembrar que a JBS já era uma empresa consolidada bem antes da negociação com o BNDES.

    Exatamente. A JBS tem 60 anos e o BNDES participa dessa história há 5 anos.

    Euler de França Belém — Os jornais mostram que as ações, como um todo, estão perdendo valor. O que está acontecendo?

    Se o planeta Terra inteiro está com problemas, como é que as ações não seriam afetadas? O problema é que os investidores do exterior, descapitalizados. Começaram a retirar suas aplicações aqui, para poder fazer dinheiro. Enquanto tem alguns ganhando, outros perdem. Assim é o mercado de ações. Se o país de origem do investidor tem problemas, ele tem de arrumar um jeito de fazer caixa.

    Euler de França Belém — O fato de ter procurado o BNDES soou, à parte não tão bem informada do mercado, como um sinal de falta de solidez da empresa. E seu irmão, em entrevista à revista “Exame” e ao jornal “Brasil Econômico”, disse que falta uma melhor estratégia de comunicação e marketing à JBS. O sr. vê assim também?

    Não vejo que tenhamos um problema de comunicação. O problema é que, de fato, nunca comunicamos. Para ter uma ideia, fizemos recentemente uma ação de marketing da marca Friboi em São Paulo — o que ocorrerá também aqui em Goiás — que foi um estouro de vendas.

    Euler de França Belém — Os Estados Unidos, que sempre se caracterizaram pelo livre mercado, também estão adotando incentivo às empresas privadas com injeção de dinheiro pelo Estado. O sr. considera isso importante?

    Para responder isso, basta eu citar o que o ex-presidente Lula fez durante a crise de 2008: ele desonerou os impostos, baixou o IPI dos carros e fez o povo consumir. Se fosse outro governo, talvez a política tivesse sido aumentar as alíquotas pensando em arrecadar mais. O Estado precisa estar atento ao momento da economia: em determinadas ocasiões é importante subsidiar até totalmente certos setores; em outras, fazer uma redução do tributo; e em outras ainda, talvez o certo seja até mesmo sobretaxar. E o subsídio não deve ser encarado como algo para a vida inteira.

    Euler de França Belém — E como é a aceitação da JBS nos EUA, hoje?

    A presença da empresa foi motivo até mesmo de debate nas eleições presidenciais de lá. Hoje, a aceitação é muito boa. Os Estados Unidos já nos reconhecem como uma empresa multinacional e como uma empresa líder de mercado, eficiente e idônea. O mercado dos EUA não tem mais nenhuma dúvida sobre a agilidade e a capacidade de adaptação dos brasileiros.

    Cezar Santos — Alguns líderes ruralistas, como o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), já falaram de um problema na relação dos grandes frigoríficos com os pequenos fornecedores. Estes ficariam à mercê do preço imposto pelos primeiros. Como o sr. vê essa discussão?

    Esse ponto de vista sempre foi algo que também não se desligou da questão política, mas já é coisa do passado. Hoje o preço da arroba do boi brasileiro é um dos mais altos do mundo. Tive um encontro com o deputado Caiado e um ótimo diálogo, em que pudemos acertar todas as arestas.

    Euler de França Belém — A empresa está diversificando a área de atuação, saindo apenas do negócio da carne. Por que isso?

    A JBS atua basicamente na área de alimentos. A holding, porém, está em busca dessa diversificação de suas ações, o que é importante do ponto de vista empresarial, atuando em ramos como celulose e higiene. Isso é necessário para dar equilíbrio e sustentação: uma hora a carne pode não estar bem, mas a celulose, por exemplo, pode dar sustentação.

    Patrícia Moraes Machado — A JBS é, por origem, uma empresa familiar. Como sua família tem avaliado seu interesse pela política? De alguma forma seus irmãos, por exemplo, participaram dessa decisão?

    Eu expus a eles que gostaria de tentar um projeto político. Como eu disse, teve um momento em que eu não podia sair da empresa. Então, me organizei e desta vez, em um entendimento nosso, acharam que agora é um bom momento.

    Patrícia Moraes Machado — O sr. começa agora a estar mais ativo na cena política. A empresa fica mais visada e já está sendo bombardeada com questionamentos que, em outra situação, não existiriam. Assim como o sr., a JBS também não fica na mira dos adversários? Isso não foi ponderado entre vocês?

    Não há preocupação com isso. A JBS é uma empresa de capital aberto. Falar mal dela é uma irresponsabilidade total, de qualquer governante ou de qualquer pessoa brasileira. Tentar quebrar a credibilidade da JBS é tentar quebrar a credibilidade do Brasil. É lutar contra o Estado e contra o País. A empresa é um projeto nacional, dos brasileiros, e ajudou muito na credibilidade que o País tem hoje lá fora. Ela colaborou bastante para a queda do chamado risco Brasil, porque fortaleceu a imagem que as empresas nacionais têm lá fora. Torcer contra a JBS é falar mal do próprio País, é torcer pelo touro e não pelo toureiro.

    Euler de França Belém — E quais são os planos da empresa para este ano, aqui no Brasil?

    Em novembro vamos inaugurar o primeiro módulo de nossa fábrica de celulose, em Mato Grosso. Há 8 mil pessoas trabalhando na obra. Uma maravilha. Nos Estados Unidos, temos uma estrutura maravilhosa. A JBS é uma empresa que precisa ser mais bem conhecida.

    Patrícia Moraes Machado — O sr. não teme que a ligação com a JBS se torne uma relação apenas econômica e não se sustente politicamente?

    Em minha visão, são coisas totalmente diferentes. É preciso deixar bem claro que esse projeto político é pessoal, totalmente meu, feito por ideal. Não tem nada a ver, absolutamente nada, com a JBS, da qual sou acionista e na qual estou no conselho. O projeto político é passageiro, tem dia de entrar e de sair.

    Patrícia Moraes Machado — Seus opositores trabalham com o discurso de que o sr. estaria, nas visitas ao interior, se comprometendo a proporcionar um “milagre econômico” a candidatos à eleição e à reeleição.

    É natural que quem esteja do outro lado faça isso, porque eu tenho independência. Só que não estou preocupado com isso. Mesmo porque nunca tive tal tipo de conduta e nem poderia fazer, pois o que faço me atém ao que está na lei. Posso fazer tudo, desde que seja dentro da legislação. Ninguém me proíbe de investir no que acho interessante. Euler de França Belém — Alguns políticos dizem que o sr. começou muito cedo. O que o sr. diz a eles? Já eu acho é que estou começando muito tarde. (risos)

    Euler de França Belém — Qual a visão que o sr. tem do poder?

    Acredito em alternância, inovação, lealdade, respeito, trabalho e cumprimento de compromissos. Mandato tem tempo de começar e de terminar, como tudo: na vida, a gente “está”, a gente não “é”. Fiz minha sucessão na empresa quando tinha 45 anos. Não entro na disputa para fazer a vida, não estou interessado em salário de governador — que, aliás, quero doar todos, não quero nem saber quanto é. Minha intenção é maior: penso nos meus filhos, em um Goiás melhor, em me orgulhar por ter dado uma contribuição a meu Estado como brasileiro, assim como dei à empresa. Uma das coisas que mais me realizam na vida é dar às pessoas a oportunidade de ficar bem. Quem me conhece sabe disso.

    Euler de França Belém — Como o sr. avalia sua relação com os políticos?

    A política nos dá uma oportunidade única de conhecer as pessoas e conviver com elas. Tenho encontrado muitas pessoas boas. Por outro lado, quando o modelo não é agradável ele acaba contaminando as pessoas em volta dele. O mesmo acontece no mundo empresarial. Tenho identificado e diferenciado quem é oportunista do que tem boa intenção, que é pessoa do bem. Vejo mais pessoas do bem querendo participar.

    Euler de França Belém — A gestão do prefeito Paulo Garcia em Goiânia tem sido realizadora?

    Paulo Garcia está nesse grupo das pessoas do bem. Tem se esforçado ao máximo para administrar uma cidade em que a demanda é sempre crescente. Precisa é de mais tempo. Em dois anos de gestão não dá para fazer muita coisa, até mesmo porque ele já tinha compromissos já fechados a cumprir, deixados por seu antecessor. Sendo reeleito, ele será o prefeito de fato e de direito. Paulo Garcia é o meu candidato a prefeito de Goiânia. Sempre o apoiei e vou seguir assim até o fim da disputa.

    Euler de França Belém — Havia duas grandes cidades em que as eleições eram tidas como favas contadas: Itumbiara, em que o prefeito Zé Gomes elegeria até um poste e hoje aparece o opositor Gugu Nader liderando as pesquisas, após receber certo apoio; em Rio Verde, Juraci Martins (PSD) lidera pela reeleição, mas uma frente política pode surpreender. Como o sr. analisa isso?

    É algo natural, no sentido da alternância da renovação. Parabenizo o prefeito Zé Gomes pelo trabalho que realizou por Itumbiara, mas não é ele mais o candidato. Ao apoiar Gugu Nader, percebeu-se que ele precisava apenas de alguém que trouxesse um referencial para seu nome. Os empresários agora, depois que externei meu apoio, já o procuram. A despeito de seu bom trabalho à frente da cidade, Zé Gomes sabe que nem sempre se transfere votos. Em Rio Verde, o candidato deve ser Karlos Cabral (PT) e pode, certamente, acontecer algo diferente. Política não é ciência exata, não há receita pronta, tudo pode acontecer.

    Elder Dias — Pode acontecer, inclusive, de o sr. não ser candidato a governador em 2014?

    (risos) Não, isso não. Essa possibilidade não há.

    Euler de França Belém — Os aliados podem crer que o sr. irá até o fim?

    Lógico, a não ser que eu morra ou me matem. (risos) Só há esses dois jeitos para eu não ser candidato.

    Euler de França Belém — O sr. não tem um concorrente interno, Vanderlan Cardoso (PMDB). Há possibilidade de uma chapa única?

    De minha parte, nenhum problema. Os dias e os trabalhos vão indicar o rumo. Conheci Vanderlan há pouco tempo, mas temos um relacionamento muito respeitoso, embora só empresarial.

    Euler de França Belém — O sr. não considera muito difícil enfrentar Marconi Perillo?

    Após enfrentarmos os americanos e o mundo, não há temor. Ganhar de Marconi seria grande. Perder, em hipótese, não é demérito. Posso até perder, mas, na outra eleição ele não poderá mais concorrer.