China repensa mão forte do Estado

  • Bo Xilai

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    Deveria a China colocar em prática uma reforma radical ou retomar uma economia mais comandada pelo governo? É uma questão familiar tornada mais urgente com a queda de Bo Xilai, visto por muitos como um líder da facção conservadora do Partido Comunista. Recente editorial do Diário do Povo - que defendeu vigorosamente mais reformas, bem como um apelo do Banco Mundial e de uma agência de pesquisas do gabinete chinês em defesa de um papel menor para o Estado no financiamento econômico e na política industrial - deu relevo às questões. "O debate será acirrado", escreveu Stephen Green, economista especializado em China no Standard Chartered, em relatório de 1º de março. No entanto, acrescentou ele, "alguma coisa boa está surgindo em Pequim".

    A polêmica concentra-se em dois modelos. O de Chongqing defende um esforço de cima para baixo por igualdade social, com um papel mais forte para o governo na economia; seu nome evoca a gigantesca cidade no sudoeste da China onde Bo Xilai era o manda-chuva até o início de março. O outro modelo pretende reduzir o papel das empresas estatais, incentivando o crescimento de setores de atividade mais intensivos em capital e valor agregado, e defende reformas políticas de baixo para cima. Essa é a abordagem Guangdong, assim chamada em referência à primeira província costeira que enriqueceu com base em exportações e é agora um centro de experiências em matéria de governança. "Sou fortemente favorável ao modelo de Guangdong e temo o modelo de Chongqing", escreveu Sun Liping, sociólogo da Universidade de Tsinghua, na edição de 16 de março do "Observador Econômico", publicação semanal de negócios publicada em Pequim. "No longo prazo, é mais importante que as massas tenham direito de lutar por seus interesses".

    Apesar de queda de Bo Xilai do poder, o modelo de Chongqing ainda tem seus defensores. Um site cujo nome significa "Utopia" defende o Estado grande e foi tirado do ar após a destituição de Bo em um escândalo ainda em desdobramento que poderá implicá-lo em corrupção. O site, que voltou a funcionar, publicou centenas de artigos em apoio a Bo, diz David Kelly, diretor de pesquisas da consultoria China Policy, com sede em Pequim.

    Para reverter a crescente desigualdade social em sua região, Chongqing tem incentivado os agricultores a tornarem-se residentes urbanos e a se qualificarem para obter acesso a melhores benefícios, e começou a construir 800 mil unidades em conjuntos habitacionais. Bo também criou diversos grandes conglomerados, mesclando mais de uma dúzia de pequenas empresas estatais. Apesar do sucesso de Chongqing em atrair investidores como a Ford Motor e a Foxconn Technology, empresários estrangeiros manifestam preocupações com que as empresas apoiadas pelo governo possam estrangular sua operação.

    Uma ação repressiva das autoridades da cidade no outono passado tendo por alvo a Wal-Mart, relacionada com rótulos errados em produtos de carne de porco, obrigou a maior varejista do mundo a fechar temporariamente 13 de seus supermercados, o que assustou investidores. "Se o modelo de Chongqing favorece um papel maior para o governo, em que empresas estatais assumirão predominância na economia, isso será negativo para as empresas estrangeiras", diz Christian Murck, presidente da Câmara Americana de Comércio na China. Foi também preocupante a maneira como Bo desbaratou um esquema mafioso em Chongqing: ele não só prendeu os acusados de pertencer à organização máfiosa como deteve um importante advogado de Pequim que defendia um dos acusados.

    Wang Yang, secretário do partido em Guangdong tem se empenhado em mudar a economia da província: reduzindo a ênfase em atividades intensiva em mão de obra e em consumo energético - indústrias poluidoras fincadas na produção de brinquedos, artigos têxteis e plásticos - e estimulando atividades mais modernas e menos poluentes -como desenvolvimento de software, de novas tecnologias para geração de energia e de biotecnologia. Wang optou por privilegiar principalmente empresas privadas, incentivando o crescimento delas com incentivos tributários e pressionando outros setores que operam com margens mais estreitas com normas trabalhistas e ambientais mais rigorosas. Por exemplo, indústrias moribundas deixaram Shenzhen, no que Wang denominou "esvaziar a gaiola e trocar o pássaro".

    O que mais entusiasma os liberais chineses é o encorajamento, estimulado por Wang, para que as bases participem da formulação da política econômica. Isso inclui dar aos trabalhadores mais voz no contexto do sindicato oficial, bem como uma mão menos pesada na repressão à revolta ocorrida no ano passado na aldeia Wukan, num incidente envolvendo grilagem de terras e a morte de um manifestante. Wukan, na costa de Guangdong, acabou de realizar o que parecem ter sido eleições limpas para um novo dirigente local.

    Ainda não é possível dizer qual desses dois modelos prevalecerá. Provavelmente isso não ficará claro antes do Congresso do Partido, mais para o final do ano, quando a China substituirá a maioria de seus principais líderes e então os dois campos poderão disputar a supremacia durante anos. "Em 2001, tínhamos um roteiro e ele dizia respeito ao acordo para admissão à Organização Mundial de Comércio. Hoje não temos uma noção de qual será o caminho trilhado pela China", diz Murck, da Câmara. (Valor Online)

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