O tamanho de Joãosinho Trinta para a cultura brasileira

Por Walter Brito

  • Joãosinho com  belas mulatas

  • Certa vez um homenzarrão, porteiro da conferência de Haia na Holanda, ao ver Rui Barbosa adentrar ao recinto disse: “Porta tão grande para homem tão pequeno”, afirmou, pensando que o baixinho brasileiro não entenderia o seu idioma.

    Lá na tribuna, em seu pronunciamento, o advogado baiano o fez em diversos idiomas, com firmeza, determinação e conhecimento de causa. Saiu com o titulo: Águia de Haia.


    Ao sair do evento, Rui disse em holandês escorreito ao porteiro: “Gostaria de dizer-lhe o mesmo que você me disse. Entretanto, afirmo-lhe que o homem, mede-se daqui pra cima”. Indicando-lhe com a mão direita o queixo.

    O pequenino Joãosinho Trinta ganhou o mundo ainda infante. A sua estatura pequena e a origem pobre não o intimidaram. Foi bailarino e dos bons no Teatro Municipal. Reescreveu a historia de nosso carnaval e parte da cultura brasileira.

  • Joãosinho e Rui Barbosa: Dois baixinhos que fizeram história

  • Os carnavais que o fizeram campeão na avenida, só na Beija-Flor foram cinco, tornaram-se apenas um detalhe, na trajetória desse gigante da cultura mundial.

    Nem só suas vitórias, que lhe davam o título de campeão, mostravam a genialidade do maranhense.

    Quando o ousado João trouxe o luxo para o carnaval, ganhou uma legião de imitadores. Para marcar essa história, ele disse ao mundo: “Quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo”.

    A partir daí, o dinheiro farto começou a falar mais alto na avenida. Os imitadores do mago João, para derrotá-lo exigiam mais e mais dinheiro de seus patrocinadores, contratando muitas vezes a peso de ouro, estrelas nacionais e internacionais para desfilarem em seus luxuosos carros alegóricos.

    O Rei dá o Golpe

  • Ratos e urubus

  • O rei dos reis, não mostrou aos seus aprendizes e imitadores o pulo do gato. Percebeu João, que o público já se cansava de ver a mesmice dos carros luxuosos na avenida. Eis que, em fevereiro de 1989, João Jorge chega à Avenida Marquês de Sapucaí com uma carta na manga. Quando menos esperava o público, ele surpreende, mostrando o seu segredo e, apresenta ao mundo os diretores da Beija-Flor vestidos de gari. E mais, enche a avenida de mendigos e solta os seus blocos com a mesma vestimenta, cantando o samba enredo: “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia”.

    O maranhense nasceu ousado e foi por meio da ousadia que colocou na avenida, o seu carnaval mais famoso. Esperto e atento às questões sociais, o baixinho que nunca foi político, era um crítico clássico das coisas da política brasileira e um conhecedor profundo de suas questões sociais.

    O carnaval que ele reinventou. Ele mesmo desconstruiu, ou seja, o luxo virou lixo. Com esta cartada, Joãosinho deu um golpe de mestre em seus adversários na avenida. A Beija-Flor foi a segunda colocada, mas a genialidade de Joãosinho permaneceu intacta.

    Nem a doença o diminuiu.

  • O empresário Ricardo Marques, se prepara para lançar o livro que escreveu com Joãosinho e, o filme sobre a trajetória do carnavalesco

  • Ele sofreu dois AVCs e veio para Brasília se tratar no Hospital Sarah Kubitschek.

    Lá no leito do hospital conheceu o então Secretário da Cultura Ricardo Marques. Marques tornou-se seu protetor, incentivador e parceiro numa história que escreveram juntos: “O carnavalesco e o empresário”.

    Foi nessa fase da vida, que o carnavalesco aprendeu a discernir a cultura popular patrocinada pelo jogo do bicho e a cultura incentivada pelo empresariado e às instituições governamentais.

    É nesta oportunidade, que Joãosinho faz o encontro do seu poder criativo com a arquitetura de Oscar Niemeyer. No natal de 2007, os brasilienses ganharam um presépio de 50 metros de comprimento por 20 metros de largura, montado na Esplanada dos Ministérios e assinado por João Jorge Trinta.

    Ele faleceu aos 78 anos, na sua terra natal, São Luís-Maranhão, trabalhando com todas às suas forças, no projeto que comemorará os 400 anos de São Luís.

    Joãosinho Trinta volta à Avenida Marquês de Sapucaí, homenageado pela escola samba Beijo Flor, onde ficou por 17 anos e lhe deu cinco títulos.

    Acreditamos que ele e Rui Barbosa se encontraram lá em cima, convictos de que tamanho não é documento.


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