Filha de Maurício Corrêa quebra o silêncio

(Cléa Corrêa)

Por: Walter Brito

A primogênita do ex-presidente da Suprema Corte brasileira Maurício Corrêa e de dona Alda Corrêa; a advogada Cléa Corrêa concedeu entrevista exclusiva a este repórter, quando falou da trajetória de seu pai no mundo jurídico, político e na magistratura. Ela comentou também sobre a sua luta na advocacia em São Paulo e Brasília, bem como a relação do saudoso mineiro de São João do Manhuaçu com sua família. Maurício Corrêa faleceu no dia 17 de fevereiro de 2012, aos 77 anos.

Cléa Corrêa é advogada com pós-graduação em Direito Constitucional e ex-aluna do famoso jurista Ives Gandra da Silva Martins. A doutora Cléa também é pós-graduada em Responsabilidade Civil e Direito do Trabalho, pela fundação Getúlio Vargas. Ela trabalha agora, em uma tese de Direito Internacional na PUC de São Paulo. No dia a dia, Cléa é advogada militante nos fóruns e tribunais da capital paulista e divide o seu precioso tempo, militando também nos tribunais superiores em Brasília, onde comanda o escritório Maurício Corrêa no Lago Sul. Ela nos recebeu com muita descontração, ao lado de seu sócio na advocacia, o doutor Bruno Veiga. Questionada pela reportagem sobre a trajetória de seu pai, ela disparou: “O meu querido e saudoso pai, veio para Brasília no ano de 1961, como procurador autárquico do IAPAS e IAPM. Logo ele ganhou espaço no meio jurídico, onde fez muito amigos e militou na política da Ordem, quando se elegeu por quatro vezes consecutivas presidente da OAB/DF, no período de 1979 a 1986. No ano de 86 ele tornou-se senador da primeira eleição do Distrito Federal, quando obteve 197.637 votos. Quando Itamar Franco assumiu a presidência da República, ele foi o Ministro da Justiça. No mesmo governo, meu pai foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal, e, foi empossado na presidência daquela Casa no dia 5 de junho de 2003. Ele se aposentou no ano de 2004”, disse.

Depois de algum tempo curtindo a vida de aposentado, Cléa conta que o seu pai resolveu voltar para a advocacia, quando abriu o famoso escritório, que hoje ela comanda no Lago Sul, na capital da República: “Passada a quarentena como juiz, meu pai voltou para advocacia e abriu este escritório. Ele não me convidou para ser sua sócia, quando eu percebi eu já era sócia-proprietária. O meu pai não perguntava, ele fazia. Logo ele chegou com o contrato social e disse: Assine aí. Era o seu jeitão de ser e, eu sempre me dei bem com ele. Certamente foi por isso, que me tornei uma apaixonada pelo direito, como ele também era”, declarou.

Cléa conta que no inicio de sua carreira profissional, trabalhou no famoso escritório Demarest Almeida em São Paulo, um dos mais conceituados escritórios de advocacia do Brasil e um dos maiores da América Latina. Atualmente ela tem parceria na capital paulista, com Mandaliti Advogados e JBM Advogados. Vale ressaltar que o JBM tem como sócio-proprietário, o doutor José Edgard Bueno. Trata-se do maior escritório do Brasil em quantidade de profissionais do Direito, com 798 advogados. “Minha área de maior atuação é no Direito Privado. Frequento assiduamente a terceira e quarta turma do STJ. Trabalho muito com Recurso Especial. Faço sustentação oral, memoriais e despacho com os ministros nos tribunais. É um trabalho muito gratificante. Por isso, vivo na ponte aérea entre São Paulo e Brasília. Gostaria de ressaltar, que pretendo continuar advogando em São Paulo, cidade que me acolheu em um momento importante de minha vida. Aqui em Brasília, tenho um sócio muito competente que é o doutor Bruno Veiga, especialista em Direito Civil e Direito do Consumidor; apesar de ser ainda muito jovem, com apenas 27 anos. Inclusive, o Bruno está sendo preparado para advogar nos tribunais superiores”, completou.

Cléa opina sobre o Mensalão

"Concordo com o ex-ministro da Suprema Corte Eros Grau, quando disse que o julgamento do mensalão, deveria ser menos pirotécnico e não ser tão televisionado. Exemplo disso, deu-se com o brilhante ministro Celso de Mello. No inicio do julgamento do Mensalão, ele tinha dito que eram cabíveis os Embargos Infringentes. Quando ocorreu a discussão sobre o cabimento ou não dos embargos, colocou o nosso brilhante ministro em situação difícil, pois, ele tinha afirmado em alto e bom som, ao vivo e a cores para todo Brasil sua posição. Logo, toda comunidade jurídica já sabia que ele admitiria. Criou-se daí, uma semana de espera, de comoção nacional, para ver se isso modificaria o entendimento do ministro. Entretanto, Celso de Mello, foi muito honesto com ele mesmo e, não se deixou levar pelas pressões e pela comoção nacional, em torno de seu voto que era decisivo", comentou.

Defesa das prerrogativas dos advogados

Doutora Cléa disse que as prerrogativas dos advogados são muito comentadas, entretanto, na prática elas não são defendidas pela OAB como deveria: “Eu sou inscrita na OAB do DF e de São Paulo, mas acompanho com maior assiduidade os acontecimentos na capital paulista. Lá, o nosso presidente Marcos da Costa fala muito na defesa das prerrogativas, bem como, falou o ex-presidente Luiz Flávio Borges D'Urso no seu mandato. Ambos com discursos e teorias muito bonitas sobre a defesa dos advogados. Contudo, no dia a dia da advocacia, o advogado é muito prejudicado em seus direitos, enquanto que as seccionais da Ordem não lutam para proteger e fazer valer nossas prerrogativas, como deveriam. Todos os dias nossas prerrogativas são desrespeitadas nos fóruns, tribunais e delegacias Brasil afora. Quando levamos ao conhecimento de nossas seccionais algum caso, muito pouco é feito. É como se nada tivesse acontecido. Fico muito triste com isso”, revelou.

Política

“Pessoalmente não participo da política, mas pedi muitos votos para o meu pai, quando foi candidato à presidência da OAB e também quando se elegeu no Senado. Por falar em OAB, recentemente estive visitando o atual presidente da OAB/DF, o doutor Ibaneis Rocha. Lembrei-me dos velhos tempos em que fazia campanha na porta do prédio da OAB, que hoje homenageia o meu pai, ou seja - Edifício Maurício Corrêa. Fiquei muito emocionada com esta visita, principalmente quando cheguei ao quarto andar, onde o doutor Ibaneis despacha hoje. Lá foi a sala ocupada por meu pai. Lembrei-me naqueles instantes dos anos 80, quando os militares tentaram invadir a OAB/DF. Todos os advogados que estavam na sede de nossa seccional, saíram abraçados, sob a liderança de Maurício Corrêa, impedindo que os militares adentrassem ilegalmente nas dependências daquela honrada instituição. Na política, lembro ainda das visitas que Leonel Brizola fazia ao meu pai em nossa casa. Os dois eram muito amigos”, disse.

O pai e avô, Maurício Corrêa

“Ele era extremamente rígido na criação das três filhas, especialmente comigo, a mais velha. Com a Flávia e a Cláudia certamente ele foi menos rígido. Maurício era muito amoroso, mas ao seu jeito. Como avô, meu pai foi muito atencioso. Ele foi de fato, um avô fantástico. Eu brincava com ele e dizia: o senhor é mil vezes melhor como avô, do que como pai. Eu tenho três filhos: O Bernardo que estuda Administração; Gabriela formada em Direito e Eduardo que é estudante de Direito. Todos foram muito paparicados pelo avô.”, disse.

Questionada pela reportagem, se já está realizada como advogada, a doutora Cléa disse: “Ainda falta muita coisa para eu dizer que estou realizada como advogada. Entretanto, me realizo na militância diária da minha honrada profissão. Advogar é fantástico. Gosto do que faço e dos ensinamentos deixados pelo meu pai, o advogado Maurício Corrêa”, concluiu.